O que significa a avaliação do estado nutricional
Elza Daniel de
Mello
J Pediatr (Rio J)
2002;78(5):357-8
A avaliação do estado
nutricional é uma etapa fundamental no estudo de uma criança,
para que possamos verificar se o crescimento está se
afastando do padrão esperado por doença e/ou por condições
sociais desfavoráveis. Ela tem por objetivo verificar o
crescimento e as proporções corporais em um indivíduo ou
em uma comunidade, visando estabelecer atitudes de intervenção.
Assim, quanto mais populações e/ou indivíduos são
avaliados do ponto de vista nutricional, e quanto mais
seriadas são essas avaliações, mais intervenções
precoces podem ser instituídas, certamente melhorando a
qualidade de vida da população de uma forma geral. Não
existe forma de diminuir a desnutrição se ela não for
diagnosticada de maneira adequada.
A avaliação nutricional
é um instrumento diagnóstico, já que mede - de diversas
maneiras - as condições nutricionais do organismo,
determinadas pelos processos de ingestão, absorção,
utilização e excreção de nutrientes; ou seja, a avaliação
nutricional determina o estado nutricional, que é
resultante do balanço entre a ingesta e a perda de
nutrientes. O estado nutricional de uma população é um
excelente indicador de sua qualidade de vida.
Quanto à avaliação do
estado nutricional, sabe-se que não existe um método sem
críticas, tanto em se tratando de crianças saudáveis como
de crianças portadoras de doença crônica. Existem
diversos métodos para a avaliação do estado nutricional.
Deve-se utilizar aqueles que melhor detectem o problema
nutricional da população em estudo e/ou aqueles para os
quais os pesquisadores tenham maior treinamento técnico().
Em artigo de revisão publicado em 2000, neste Jornal, você
poderá revisar os vários métodos de avaliação do estado
nutricional().
Um outro estudo publicado também neste Jornal já analisa
as dificuldades da avaliação nutricional, salientando que
ela deve ser criteriosa, tanto na metodologia empregada,
quanto na análise dos resultados em relação à abordagem
coletiva ou individual().
A verificação seriada é a ideal, pois avalia o
crescimento de cada criança. Para uma análise transversal,
a associação de mais de um método de avaliação
nutricional é o mais recomendado.
Neste número do Jornal de
Pediatria, temos um artigo que avalia o estado nutricional
de crianças índias do Alto Xingu. Este grupo já vem há
algum tempo estudando esta população, como em outro
trabalho publicado por esse Jornal, sobre o estado
nutricional e o teste de hidrogênio no ar expirado().
O atual estudo diferencia-se por avaliar mais atentamente o
estado nutricional, comparando métodos antropométricos com
a impedância bioelétrica . Ele deve ser atentamente lido,
especialmente porque demonstra baixas taxas de desnutrição
e obesidade, o que nos leva a crer que, mesmo com influências
diversas, essa população consegue manter sua integridade
ambiental e cultural. A dificuldade de acesso ao Parque do
Alto Xingu, como comentam os autores, talvez seja uma
justificativa para tal qualidade nutricional.
O estudo do crescimento físico
de crianças indígenas xavantes já não demonstrou tão
bom estado nutricional, fato mais habitualmente encontrado
quando se avalia populações indígenas. A desnutrição de
populações indígenas as coloca em situações de risco,
nas quais as mudanças socioeconômico-culturais impostas a
estas populações são certamente os fatores determinantes().
A população indígena do
Alto Xingu estudada segue os princípios de uma boa nutrição.
As crianças são amamentadas de forma exclusiva durante o
primeiro ano de vida, e de forma mista até os 3 anos de
idade. Ingerem uma variedade de alimentos, mantendo um
representante de cada classe: mandioca, peixe, ovos e frutas
silvestres. Ingesta bem diferente da tendência mundial,
onde o consumo de alimentos de origem animal, de açúcares
e de farinhas refinadas é alto, e o de cereais integrais e
fibras é baixo.
Esse estudo salienta uma
população com boa qualidade de vida, já que tem oferta de
alimentos saudáveis e não é possuidora de doenças crônicas
e más condições ambientais que determinem desequilíbrio
entre a ingesta e o gasto calórico.
Outro dado de extrema
importância é a pequena incidência de obesidade, fato
contrário à tendência da população industrializada
mundial, demonstrando que uma dieta variada, na ausência de
sedentarismo e de modismos da vida industrializada, como
fast food e produtos alimentares industrializados, diminui o
risco de obesidade.
Assim, recomendo a leitura
do artigo de autoria do Dr. Ulysses Fagundes Neto e
colaboradores, pelos métodos de avaliação do estado
nutricional empregados e pelos resultados tão relevantes
encontrados.
Referências
BIbliográficas
| 1.
Heyward VH, Stolarczyk. Avaliação da composição
corporal aplicada. Rio de Janeiro: Manole; 2000. p.
243. |
| 2.
Sigulem DM, Devincenzi UM, Lessa AC. Diagnóstico do
estado nutricional da criança e do adolescente. J
Pediatr (Rio J) 2000;76 Suppl 3:275-84. |
| 3.
Goulart EMA. A avaliação nutricional infantil no
software EPI-Info (versão 6.0), considerando-se a
abordagem coletiva e individual, o grau e o tipo da
desnutrição. J Pediatr (Rio J) 1997;73(4):225-30. |
| 4.
Alves GMS, Morais MB, Fagundes-Neto U. Estado
nutricional e teste do hidrogênio no ar expirado com
lactose e lactulose em crianças indígenas terenas. J
Pediatr (Rio J) 2002;78(2):113-9. |
| 5.
Gugelmin AS, Santos RV, Leite MS. Crescimento físico
de crianças indígenas xavantes de 5 a 10 anos de
idade em Mato Grosso. J Pediatr (Rio J)
2001;77(1):17-22. |
Elza Daniel de Mello - Gastroenterologista
Pediátrica e Nutróloga. Professora Assistente de Pediatria
da UFRGS