BREVES COMENTÁRIOS SOBRE FOME E
SEGURANÇA ALIMENTAR
Anna
Maria de Castro – Doutora em Nutrição Social e Aplicada
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e
Professora Titular de Sociologia desta mesma Universidade.
Lana
Magaly Pires – Mestre em Saúde Pública pela Escola
Nacional do México. Doutoranda em Antropologia pela PUC-SP.
Professora de Educação Nutricional do Departamento de
Nutrição da Universidade Federal do Paraná.
Maria do Carmos Soares de Freitas – Doutora em Saúde Pública
com Ênfase em Ciências Sociais pelo Instituto de Saúde
Coletiva da Universidade Federal da Bahia e Professora
Adjunta do Curso de Nutrição da mesma Universidade.
Falar de
pobreza é sempre lembrar subnutrição, analfabetismo,
exclusão social, perda da cidadania, o não atendimento de
necessidades básicas tais como habitação, transporte,
saneamento, saúde, emprego, etc. Pobreza, como lembrava
Josué de Castro, se traduz em fome em todos os seus
sentidos: fome de alimentos, fome de saber, fome de
conhecimentos, de liberdade, de lazer. Nada portanto,
distingue tanto os homens como ter ou não ter o que comer.
A
fome tem sido através dos tempos, a mais perigosa força
política
Na obra
de Josué de Castro, a palavra fome é usada num sentido
amplo, refere-se a qualquer falta de elementos nutritivos
necessários à formação do organismo humano, abrangendo,
assim, a fome quantitativa ou penúria aguda, e a fome
qualitativa, causada por deficiências específicas na dieta
cotidiana. Ou seja, o termo fome também significa doença
carencial, ou desnutrição. Esse conceito dado pela clínica,
expressa a deficiência de micro (vitaminas e minerais) e
macro nutrientes (proteínas e calorias) nutrientes. São
essas doenças de fome (as carências nutricionais) que
predispõem o corpo a outras enfermidades como por exemplo:
tuberculose, tracoma, lepra, verminoses e parasitoses
gastro-intestinais, presentes preferencialmente em populações
que vivem na pobreza. Embora estas doenças possuam um
agente patogênico específico, suas manifestações mórbidas,
sua propagação e sua evolução dependem, enormemente, do
estado de resistência orgânico propiciado pela nutrição.
Como um
produto das condições sócio-econômicas, a fome-desnutrição
afeta principalmente o grupo materno infantil. Sobre este
aspecto, a Pesquisa Nacional de Alimentação e Nutrição
do Ministério da Saúde realizada em 1989 mostrou uma queda
dos níveis de desnutrição das crianças quando comparada
com o Estudo Nacional da Despesa Familiar – ENDEF, da década
de 1970. Apesar desses resultados, observam-se diferenças
entre as regiões brasileiras, sendo o Norte e Nordeste as
áreas mais atingidas pela desnutrição infantil.
Verdadeiro
tabu na sociedade ocidental, a fome foi excluída durante
muitas décadas dos discursos e relatórios oficiais, ainda
que seja um fenômeno freqüente no cotidiano de milhares de
brasileiros.
Com o
crescimento da pobreza, a fome, a violência e outros
sintomas são as produções mais perversas da degradação
social observada nos setores mais pobres da sociedade
brasileira. Ou melhor, o crescimento do desemprego e a ausência
de projetos políticos para os setores populares
constituem-se na sustentação de uma espécie de vazio de
expectativas para as pessoas, fortalecendo a desesperança
dos que sobrevivem sem qualquer garantia de uma permanente
alimentação cotidiana. Esta desesperança é marcada
sobretudo, pela desocupação e, conseqüentemente, pela
expansão da criminalidade. Desse modo, a fome se relaciona
com o desemprego, a violência e tantos outros flagelos
sociais. Em suma, podemos dizer que a fome povoa os
horizontes de quem vive em degradados contextos sociais, e
por isso, pode ser sentida como uma ameaça à vida.
A origem da palavra fome
A palavra
fome é derivada de fame, do latim, e esta, de famulus ou
escravos ou servos, também do latim, e na língua
portuguesa vai ser conhecida como fâmulo, famulentos, famélicos
ou que têm fome. Famulus, mais tarde terá o mesmo
significado que família, para distinguir o termo gen ou
tribo, da linhagem semita. Fome e família combinam-se, na
origem de suas expressões fundantes, à servidão, escravidão
e pobreza. A fome, nesses dias atuais, continua literalmente
relacionada aos pobres e suas famílias pelo modo como estão
inseridos no processo produtivo.
Segurança Alimentar
Segurança
Alimentar quer dizer “acesso em quantidade e qualidade de
alimentos requeridos para a saudável reprodução do
organismo humano e para uma existência digna” (I Conferência
Nacional de Segurança Alimentar, Julho de 1994). Trata-se
pois de um direito humano fundamental à vida, conforme
complementa o documento sobre o Projeto Fome Zero do governo
Lula.
No início
da década de 1990, a FIBGE e o IPEA revelaram que havia 32
milhões de brasileiros na extrema pobreza, ou com fome crônica
(IPEA, 1992). Naquele período entre 1990 a 1992, estava em
cena a luta pelo direito à cidadania com o Movimento pela
Ética na Política e a Ação da Cidadania contra a Fome a
Miséria e pela Vida, que inaugura ações de solidariedade
e urgência em todo o país. Entretanto, observou-se que o
caráter filantrópico da doação de alimentos tornou-se a
principal, senão a única resposta aos famintos, e o caráter
solidário (como a participação e valorização dos
movimentos sociais) foi reduzido ao modelo assistencialista
e voluntarista, dissociado da crítica sobre a produção
social do problema da fome. Com essa dificuldade política,
os comitês deram sinais de cansaço, reduzindo o movimento
a alguns espaços junto aos governos municipais ou às
organizações não governamentais.
A persistência
de alguns comitês, em particular no Rio de Janeiro, pela
influência do sociólogo Herbert de Souza (Betinho)
tentaram ampliar a discussão das ações, colaborando com o
exercício da reflexão dentro de diversos setores sociais,
como a emergência da reforma agrária e a reorientação
das políticas de abastecimento alimentar. Apesar da curta
experiência no período entre 1993 e 1994, o Conselho
Nacional de Segurança Alimentar – CONSEA, trouxe a
discussão da fome para o interior da esfera oficial e a
reflexão sobre seguridade alimentar. Dentre as muitas questões
que cercam o tema, citamos como exemplo as dificuldades de
implementar, no atual modelo econômico, um projeto
nacionalista sustentável para garantir a toda a população
brasileira o acesso permanente aos alimentos de melhor
qualidade. Entretanto, ao ampliar o debate sobre a fome e a
segurança alimentar no Brasil e no mundo, cria-se
expectativas para a remoção das causas do problema. Para
essa trajetória, a equidade social é a expressão mais
comum a somar-se à conquista da segurança alimentar.
Segurança Alimentar e Meio
Ambiente
Para uma
compreensão mínima sobre segurança alimentar e meio
ambiente, faz-se necessário contextualizar a insegurança
alimentar e a degradação ambiental, ou seja, os aspectos
negativos que envolvem a questão alimentar. De fato, a relação
segurança alimentar e meio ambiente deve visualizar as
interações entre os recursos naturais e a organização
social da comunidade para explorá-los. A construção de um
campo do saber sobre segurança alimentar deve contemplar as
inúmeras questões que envolvem o meio ambiente, entre os
quais os espaços eco-produtivos, como os manguezais, que
possuem fontes de alto valor biológico para a alimentação.
Também, vale destacar a importância de um tipo de
desenvolvimento que seja capaz de propiciar o acesso aos
recursos hídricos adequados, que satisfaçam as
necessidades mas garantam a integridade da água.
Obs. Ver
mais sobre estes temas em Josué de Castro, Homens e
Caranguejos, RJ: Civilização Brasileira (1967) 2001; Ignácy
Sachs, “A questão alimentar e o eco-desenvolvimento”.
In. Minayo, Maria Cecília de Souza (org.) Raizes da Fome.
RJ: Vozes, 1985; Simone Ramalho, Os manguezais de Porto de
Sauípe: um estudo etnográfico sobre a Segura