O
tamanho da fome no Brasil
Calcular a quantidade de
pessoas sujeitas à fome no Brasil é um problema bastante
complicado. Não há consenso sobre o tamanho da população
atingida. Tudo depende das medidas e critérios utilizados
para definir quem compõe esse contingente.
O último levantamento abrangente e de qualidade sobre o
acesso da população a alimentos e outros bens de consumo
foi o Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef), de
1974/75. A partir de seus dados, foi possível avaliar que
42% das famílias brasileiras (8 milhões de famílias), ou
cerca de 50% da população da época, equivalente a 46,5
milhões de pessoas, consumiam menos calorias que o necessário.
Diversas pesquisas foram realizadas com base em indicadores
de renda - uma forma indireta de se inferir a população
carente. O pressuposto, nesses casos, é que a insuficiência
de renda constitui o principal fator que leva as pessoas a não
ingerir alimentos na quantidade adequada. Assim, define-se
uma linha de pobreza abaixo da qual a renda seria inadequada
para suprir as necessidades básicas - entre as quais a
alimentação -, e calcula-se o número de pessoas abaixo
dela.
Evidentemente, mesmo com renda inferior às suas
necessidades de consumo, as pessoas conseguem se alimentar.
Observa-se, nas grandes cidades, uma imensa quantidade de
indigentes que, embora não tenham condições financeiras
para comprar comida, conseguem se alimentar graças à
caridade dos demais. Ignorar essa situação poderia
resultar numa superestimação dos dados da fome. Todavia,
verifica-se que esses indivíduos vivem uma situação de
risco, pois não se alimentam regularmente e, mais
importante, não se alimentam de forma digna.
Diante das dificuldades para mensurar a indigência ou a
pobreza no Brasil, o Programa Fome Zero, síntese da política
de combate à fome do Governo Lula, procurou estimar a
quantidade de pessoas que passam fome no país tomando por
base os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD), do IBGE, de 1999, atualizados posteriormente pela
edição de 2001.
Renda
define linha de pobreza
Buscando aperfeiçoar as
metodologias existentes, partiu-se da linha de pobreza
adotada pelo Banco Mundial, que considera pobres as pessoas
que ganham menos de US$ 1,08 por dia. Foram desenvolvidas,
então, correções metodológicas que levaram em conta a
variação do dólar e o desconto das despesas com aluguel
ou prestação da casa própria, item de maior peso no orçamento
familiar, proporcionalmente maior nas áreas metropolitanas
do que nas pequenas e médias cidades e áreas rurais.
Com essas correções, chegou-se a um número surpreendente,
semelhante ao detectado em 1974/75: a linha de pobreza média
ponderada no Brasil, que é de R$ 71,53 mensais por pessoa,
indica a existência de 46 milhões de pessoas com uma renda
mensal disponível média de R$ 39,11, ou 9,9 milhões de
famílias com renda mensal de R$ 183,81, levando-se em conta
a média de 4,7 pessoas por família. Ou seja, foram
consideradas pobres as famílias que, em setembro de 1999,
data de referência da PNAD, tinham um rendimento disponível
correspondente ao valor atual do salário mínimo para viver
o mês inteiro. Não temos dúvida em afirmar que os membros
dessas famílias não têm renda suficiente para garantir
sua segurança alimentar.
Distribuição
regional da pobreza
Embora as regiões
metropolitanas concentrem apenas um quinto dos pobres
brasileiros e apresentem uma proporção de pobres menor que
outras áreas do país, é justamente nas grandes cidades
que a pobreza vem aumentando mais rapidamente. Dados do IBGE
para o período de 1995 a 2001 demonstram que houve um
crescimento anual de 6,7% na quantidade de pobres nas regiões
metropolitanas. Essa proporção contrasta com o crescimento
anual de 4,4% nas áreas urbanas não metropolitanas e com a
queda de 1,9% ao ano no número de pobres residentes nas áreas
rurais.
Pobres,
segundo Estados e Áreas de Residência
Brasil 2001 (exclusive Norte Rural)
No gráfico acima,
verifica-se a distribuição dos pobres pelos estados da
federação. A Bahia aparece em primeiro lugar em termos
absolutos, com quase 6 milhões de pessoas em situação
de risco. O estado com maior proporção de pobres na área
rural é também a Bahia (38,71%), enquanto no Maranhão
eles se concentram nas áreas urbanas (49,8%). São
Paulo e Minas Gerais, os estados mais populosos,
aparecem em seguida na classificação. Em Minas, a
maior concentração de pobres se dá nas cidades
pequenas e médias; em São Paulo, nas áreas
metropolitanas.