O
Combate a Fome e o Direito Humano a se Alimentar
(Luiz Peixoto)
A
gravidade da situação de miséria de grande parte da
população brasileira exige que se repudie com veemência
as insistentes tentativas das elites em mitificar o
problema. A sociedade brasileira não aceita mais os
discursos demagógicos que buscam circunscrever a pobreza à
situações e localidades específicas, para depois oferecer
soluções eleitoreiras. Tal como o assistencialismo
eleitoreiro deve ser rejeitado também o economicismo
tecnocrata, igualmente mitificador.
Já
está mais que evidenciado que o crescimento econômico, por
mais importante que possa ser, é absolutamente insuficiente
para se acabar com a pobreza no país. Da mesma forma, o
equilíbrio macroeconômico e a estabilização da moeda
produzem, no máximo, efeitos mitigadores e temporários,
sem alterar a situação de desigualdade social.
Qualquer
tentativa, minimamente séria, de atacar os problemas da
fome e da pobreza deve considerar as suas causas mais
profundas: a exacerbada concentração de riquezas no país.
Este diagnóstico aponta, necessariamente, para a urgência
de um amplo processo de redistribuição da riqueza
nacional. E
esta não é, evidentemente, uma tarefa que possa ser
“deixada” para o mercado. Ao contrário, experiência
internacional mostra que só se resolve o problema da
pobreza e da desigualdade com a ação firme e planejada do
Estado.
As
políticas públicas de combate à fome e pobreza não
devem, portanto, se restringir a “compensar” os efeitos
de um modelo econômico concentrador. Deve-se romper com a
artificial separação das chamadas “áreas” econômica
e social. Não se pode esperar que a “área” social
resolva o problema da pobreza enquanto a política econômica
continua a promover a exclusão. Ainda mais se considerarmos
que o atual governo não pautou nenhum programa efetivo que
possa conduzir a uma verdadeira Política Nacional de
Segurança Alimentar. Além disto, na ausência de um
projeto social mais articulado, as políticas sociais do
governo são concebidas de forma fragmentada e implementadas
de forma desarticulada.
Acreditamos
que as políticas de combate à fome e pobreza e promoção
da segurança alimentar, devem ser pensadas como parte de um
projeto alternativo de desenvolvimento, que tenha como eixo
central a promoção de um crescente processo de inclusão
social. Portanto, o combate à fome e pobreza implica
necessariamente em um amplo e sustentável processo de
distribuição de riquezas, que, em linhas gerais, deve se
traduzir em:
·
Distribuição
de renda:
Políticas de Geração de emprego e renda, recuperação do
poder aquisitivo dos salários (especialmente do salário mínimo),
programas abrangentes de renda mínima, etc.
·
Reforma
agrária: aceleração
do processo de reforma agrária (com assentamento de todas
as famílias sem terra) e ampliação das políticas de
apoio à agricultura familiar.
·
Acesso
aos recursos produtivos:
além da terra, é extremamente urgente o acesso á água,
as sementes, aos créditos rurais de produção, aos créditos
urbanos de auto-gerencimento de forma desburocratizada e
eficaz.
Acreditamos
que estes devem ser os princípios orientadores da construção
de um projeto de combate à fome e pobreza e promoção da
segurança alimentar. Tendo a diminuição das desigualdades
como um princípio básico, e inegociável, pode-se partir
para um amplo processo de discussão na sociedade organizada
visando identificar as políticas e os instrumentos mais
adequados para se acabar de vez com a fome e a miséria no
país e garantir a todos os brasileiros e brasileiras a
realização de seu direito à alimentação.
Os
programas sociais que instituídos nos últimos anos, visam
amenizar a problemática da fome e da miséria. O “Fome
Zero”, menina dos olhos do governo Lula, segue o mesmo
rumo. Todavia amenizar não é o que queremos. O povo
brasileiro quer e exige uma verdadeira guerra contra a fome
e a miséria, que passa, necessariamente, por mudanças
estruturais e profundas na organização social e na
mentalidade da elite nacional.
O
Governo de Luís Inácio Lula da Silva tem demonstrado
vontade política e disposição para o combate a fome e a
miséria. Porém só boa vontade e disposição não são
suficientes para resolver o problema de milhões de famílias
que sofrem de fome todos os dias. Como já dizia Betinho
“Quem tem fome tem pressa”. Tem pressa de comida, de
cidadania, de justiça e de direitos. Saciar essas fomes
exige mais que dinheiro e que políticas sociais. Exige uma
ruptura com o modelo econômico aplicado, com afinco e
precisão, nos últimos 15 anos, no Brasil.
O
Brasil não é um País pobre. É sim um País muito rico.
Rico pela produção e pela própria natureza. Mas é um País
desigual e injusto, com um mar de pobres e miseráveis que
cercam ilhas de acumulação, luxuria e esbanjamento. A
desigualdade é a única questão que se mantém estável ao
longo da história brasileira. Essa realidade resulta da
intensa falta de eqüidade na distribuição da renda e nas
oportunidades da inclusão social e econômica. Não é
suficiente insistir, apenas, no crescimento econômico para
erradicar a fome. O combate à fome e à pobreza é uma exigência
ética. São necessárias medidas eficientes e eficazes na
aplicação de políticas para a geração de maior
igualdade no acesso aos alimentos e para a cidadania plena.
(Bacharel
em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco – UCDB.
Secretário Geral da Seção Brasileira de FIAN –
Foodfirst Information and Action Network – Rede Informação
e Ação pelo Direito a se Alimentar)