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FÓRUM ESTADUAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRIÇÃO DE PERNAMBUCO |
FESAN - PE |
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O Papel Crucial das Mulheres na Segurança Alimentar Marilee Karl
A série de monografias “No Short-cut to Food Security” foi publicada pela Isis International-Manila em preparação para a Rural Women’s Workshop (Seminário sobre Mulheres Rurais) – um esforço para facilitar a comunicação e mobilizar as mulheres rurais e chamar atenção do público e da UN World Food Summit (Cúpula Mundial da Alimentação da ONU) para as vozes e as experiências das mulheres rurais. A Rural Women’s Workshop (Seminário sobre Mulheres Rurais) está sendo organizada com a cooperação de três organizações – Isis International-Manila, People-Centered Development Forum (Fórum de Desenvolvimento Voltado à Pessoa) e a Women’s Food e Agriculture Working Group (Grupo de Trabalho de Alimento da Mulher) - e um secretariado de Coordenação, localizado em Roma. Isis International-Manila desejaria agradecer o apoio recebido das seguintes agências que ajudaram a tornar possíveis estas publicações: NORAD - Norwegian Agency for Development Authority (Agência Governamental Norueguesa para o Desenvolvimento); Minister of Development Cooperation (Ministro de Cooperação Internacional), The Netherlands Ministry of Foreign Affairs (Ministério Holandês de Relações Exteriores) ; SIDA - Swedish International Development Authority (Autoridade Sueca de Desenvolvimento Internacional); and the Global Fund for Women (Fundo Global para Mulheres). Tradução para o Português - ÁGORA INSEPARÁVEIS - O Papel Crucial das Mulheres na Segurança Alimentar Este trabalho é um panorama dos papéis cruciais desempenhados pelas mulheres na obtenção de segurança alimentar em todos os níveis: doméstico, comunitário, nacional e internacional. A autora examina por que estes papéis, as perspectivas das mulheres e os temas relativos a gênero permanecem “invisíveis” e por que as mulheres estão sendo continuamente afastadas, particularmente na área do desenvolvimento e da segurança alimentar, das discussões, do planejamento e do estabelecimento de políticas. Sem as Mulheres, Nenhuma Segurança Alimentar A Segurança alimentar pode ser alcançada em níveis doméstico, comunitário, nacional e internacional somente se os temas relativos a gênero e as múltiplas atribuições das mulheres na segurança alimentar forem realmente reconhecidos, assim como a necessidade de qualificar as mulheres. Esta afirmação é baseada no fato de que as mulheres desempenham papéis cruciais, muitas vezes predominantes, na produção e disponibilidade do alimento, ao prover às suas necessidades, obtendo acesso ao alimento e garantindo a segurança alimentar de suas famílias. No entanto, a despeito de anos de pesquisa e montanhas de documentação e de evidências que ligam o fracasso de políticas de desenvolvimento, programas e projetos ao fato de não ser dada suficiente atenção à participação das mulheres, é ainda necessário enfocar os papéis cruciais desempenhados pelas mulheres na segurança alimentar. Ainda está para chegar o momento em que as funções chaves das mulheres na segurança alimentar serão universalmente reconhecidas e os temas relativos a gênero serão integralmente inseridos nos debates sobre desenvolvimento, nas políticas e no planejamento. Este trabalho dará um panorama dos papéis cruciais desempenhados pelas mulheres para alcançar segurança alimentarem todos os níveis: doméstico, comunitário, nacional e internacional. Irá examinar por que estes papéis ainda não são reconhecidos e por que as perspectivas das mulheres e os temas ligados a gênero ainda não são parte integrante dos debates, das políticas e do planejamento na área do desenvolvimento e na área da segurança alimentar em particular. Também verá algumas das estratégias e das ações que estão sendo implementadas, a vários níveis, para transformar esta situação, assim como examinará os desafios que nos esperam. Sobre os Temas de Gênero Antes de começarmos a tratar da segurança alimentar é importante compreender o que são os temas ligados a gênero. A palavra gênero refere-se tanto a homens como a mulheres e, mais especificamente, a características culturais, psicológicas e de conduta que são tipicamente associadas a um sexo ou ao outro. Papéis de gênero são aqueles designados em uma dada sociedade para homens ou para mulheres. Alguns destes papéis são mais estreitamente associados com homens ou mulheres. Por exemplo, o cuidado com as crianças e a preparação do alimento para a família são papéis desempenhados pelas mulheres na maior parte das sociedades em todo o mundo. Outros papéis diferem de um lugar para outro. A tecelagem, em alguns países, é considerada um trabalho de homem mas em outros países é tipicamente um trabalho para mulheres; em alguns lugares a construção é exclusivamente um domínio do homem, enquanto que em outros lugares as mulheres estão muito envolvidas neste trabalho. Os papéis de gênero não são estáticos; eles mudam com o decorrer do tempo: Têm ocorrido mudanças radicais nas categorias de trabalho que são consideradas como típicas de homens ou de mulheres, tanto nos dias de hoje como durante o século passado de forma particular. Por exemplo, as mulheres estão agregando-se em fábricas e assumindo cargas até então consideradas como trabalho masculino; enquanto isto, nas áreas rurais, mulheres vêm ocupando posições que costumavam ser dos homens, à medida que estes migram para as cidades ou para as minas a procura de melhores salários. Há cem anos, o trabalho de secretária era considerado um trabalho masculino, mas em muitos países, há muito tempo, tornou-se tipicamente feminino. Com a disseminação dos computadores, vemos agora homens e mulheres ao teclado. Em alguns países, os homens estão tendo uma participação maior no cuidado com as crianças e nas responsabilidades domésticas. A legislação sobre licenças de maternidade e paternidade, tanto reflete como promove esta situação. Por que, então, quando nos
referirmos aos temas de gênero, nós terminamos falando
sobre as mulheres? Isto acontece devido ao fato dos
homens e das perspectivas masculinas ainda serem a norma,
enquanto que as mulheres e as perspectivas femininas muitas
vezes não são levadas em consideração. Nossas
sociedades estão de tal forma condicionadas que quando
falamos de “gente”, a imagem que nos vem à cabeça é
principalmente aquela de homens. Quando ouvimos as
palavras “organização de agricultores” muitas pessoas
lembram-se de homens. Segurança Alimentar O Que é Segurança Alimentar? Define-se comumente a
Segurança Alimentar como significando que o A insegurança alimentar é caracterizada pela falta de alimento disponível, acessível, adequado e aceitável. Esta situação pode ser transitória ou crônica. A insegurança alimentar transitória é a suspensão temporária de acesso ao alimento, causada por fatores como o declínio na produção ou na renda familiar, instabilidade dos preços, desastres naturais ou causados pelo homem e indisponibilidade sazonal do alimento. A insegurança alimentar crônica é a falta prolongada da capacidade para produzir ou adquirir alimento. Suas causas são freqüentemente estruturais, tais como a falta persistente de acesso à terra e aos meios de produção, ou uma distribuição de renda e de oportunidades de emprego altamente desiguais. Enquanto há pouca discussão sobre a definição de Segurança Alimentar, as diferenças de opinião surgem quanto à interpretação e à importância relativa atribuída às condições para obtê-la. O debate é particularmente intenso sobre as diferentes ênfases dadas à disponibilidade e à acessibilidade de alimentos. De um lado, muitas agências de desenvolvimento concentram-se em aumentar a disponibilidade de alimento pelo aumento de produção. Argumenta-se que há necessidade de fazer subirem os rendimentos e utilizar prioritariamente as áreas com alto potencial de produção, para obter e manter produção suficiente de alimento para a crescente população do mundo. Pesquisa, tecnologia e uma “nova revolução verde” são vistas como o caminho principal para a segurança alimentar. No entanto, outros argumentam que o problema não reside tanto na capacidade de produção como no acesso desigual ao alimento, seja entre países ou entre pessoas dentro do mesmo país. A existência de um suprimento adequado de alimento, para sustentar a população mundial, em nível internacional, não significa que haja segurança alimentar em nível nacional se um país não puder produzir, adquirir ou de qualquer outra forma obter alimento para alimentar seu povo. Da mesma forma, a disponibilidade de um suprimento adequado de alimento em nível nacional não garante segurança alimentar para todas as pessoas no país. Sem os meios para cultivar, comprar ou obter acesso ao alimento de outra maneira, grupos ou indivíduos podem permanecer famintos em um país com abundância de alimento. Mesmo dentro dos lares pode ocorrer uma disparidade na segurança alimentar; mulheres e meninas, em muitos lares, recebem menos alimento do que os homens, tanto em termos absolutos como em termos de requisitos nutricionais. Um estudo recente da FAO - Food and Agriculture Organization (Organização da Alimentação e Agricultura) da ONU, prognostica que o crescimento mundial da agricultura deverá diminuir e que a produção mundial de cereais não crescerá em termos per capita, devido ao crescimento lento da demanda em países e grupos de população com baixos níveis de consumo de alimento [Alexandratos, 1995]. Em outras palavras, a produção de alimento irá declinar porque os países e os povos que tem necessidade de alimento não podem pagar por ele. Por estas razões, muitas organizações de agricultores, outras organizações populares (OPs) e organizações não-governamentais (ONGs), particularmente aquelas envolvidas com desenvolvimento, justiça e defesa de cidadãos, estão vigorosamente pleiteando o fomento da auto-suficiência em nível nacional. Em uma consulta regional de ONGs sobre Segurança Alimentar, realizada em Bangcoc em abril de 1996, declarou-se que “a produção visando auto-suficiência deveria ser reservada para os produtores nacionais, tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos, se eles tiverem capacidade para suprir a comunidade nacional com a quantidade suficiente de mercadorias; o comércio exterior deveria complementar e não suplantar a produção nacional” [Relatório da Consulta Regional da FAO/NGO para a Ásia e o Pacífico – World Summit, Bangcoc, Tailândia, 29-30 abril 1996]. ONGs e OPs também estão preocupadas com a questão da aceitabilidade do alimento. Conforme foi declarado na reunião das ONGs em Bangcoc, “as pessoas precisam . . . de liberdade na escolha dos alimentos que produzem e consomem”. Esta liberdade de escolha está declinando em face da crescente liberalização do comércio, do aumento de controle pelo mercado sobre o que deve ou não deve ser cultivado, políticas agrícolas orientadas para a exportação, o declínio da bio-diversidade, o crescimento das monoculturas e a predominância da mídia transnacional de massa que promove determinados estilos de vida e alimentos. Tudo isto leva a situações em que pessoas morando em países que exportam frutas tenham acesso a Coca-Cola mas não acesso a frutas frescas e também nas quais culturas locais nutritivas estão sendo substituídas por culturas comerciais menos nutritivas. A questão do alimento aceitável começa com o nascimento: ONGs tem conduzido campanhas para regulamentar a publicidade e os métodos promocionais usados pelas transnacionais para leite infantil e alimentos e para promover o aleitamento materno. Além do mais, a segurança alimentar não pode ser olhada isoladamente de outros direitos básicos que precisam existir para que as pessoas possam conduzir vidas saudáveis, tal como água, cuidados com a saúde e a educação. Finalmente, o controle democrático de todo o sistema em que o alimento está inserido é considerado por muitas DPs e ONGs um elemento essencial para se alcançar a segurança alimentar. Os Múltiplos Papéis das Mulheres na Segurança Alimentar Mulheres como Produtores Agrícolas As mulheres são maioria no
universo dos produtores agrícolas e desempenham papéis
cruciais na pesca e na agricultura. Segundo os números do FAO de 1995, as mulheres teriam produzido mais de 50% do alimento que é cultivado em todo o mundo. A contribuição das mulheres para a produção agrícola varia de país para país, de cultura para cultura e de tarefa para tarefa. No Sub-Saára da África e no Caribe as mulheres cultivam de 60 a 80% dos gêneros alimentícios básicos. Na Ásia, as mulheres realizam 50% do trabalho envolvido no cultivo intensivo do arroz. No Sudeste da Ásia, no Pacífico e na América Latina, suas hortas domésticas representam complexos sistemas agro-silvi-pastorais. Ásia: dados oficiais mostram que as mulheres representam 47% da mão-de-obra na agricultura nas Filipinas, 35% na Malásia, 54% na Indonésia, mais de 60% na Tailândia. No Nepal, a colheita de forragem para o búfalo é um trabalho exclusivo das mulheres. No Paquistão, as mulheres desempenham de 60 a 80% das tarefas na limpeza, alimentação e ordenha do gado. América Latina: as mulheres são largamente responsáveis pelas pequenas criações. As mulheres peruanas executam 25% do trabalho agrícola em todas as culturas, enquanto que, na Guatemala, as mulheres contribuem com 25 porcento da mão-de-obra da horticultura, tanto a tradicional como a voltada para a exportação. África: as mulheres constituem 61% dos agricultores no Zimbabwe e fornecem 70% do trabalho. Na Namíbia as mulheres representam 59% de todos aqueles engajados na agricultura tecnicamente qualificada e na de subsistência. Na Tanzânia, as mulheres atingem a 54% daqueles economicamente ativos na agricultura. Em Marrocos, as mulheres contribuem com mais de 50% da mão-de-obra na agricultura e, em particular, 63% na criação de gado e quase 42% na produção de legumes. As mulheres do Congo representam 73% dos produtores agrícolas e produzem 80% das culturas para o consumo domestico. Em Camarões, as mulheres produzem cerca de 90% do alimento necessário para a população local. As mulheres desempenham papéis significantes na silvicultura, especialmente na semeadura e no cuidado pelas plantas novas e na coleta de produtos de floresta para forragem, combustível e alimento. Além do mais, a madeira é uma fonte importante de combustível em muitas áreas do mundo e as mulheres são quase sempre as responsáveis pela coleta de lenha que é usada não somente para cozinhar, como também para outras necessidades básicas, como o aquecimento, iluminação e para obter água fervida. Os pequenos pesqueiros, que fornecem cerca de 25% da safra mundial de peixes, dependem de contribuições essenciais das mulheres. Em muitas partes do mundo, as mulheres, nas comunidades pesqueiras, pegam peixes com redes, armadilhas, iscas ou mergulhando; criam peixes e crustáceos; preparam e consertam redes e armadilhas; ajudam os homens nas saídas e nas chegadas à praia, selecionando e estripando o arrastão, processando e vendendo o produto [FAO 1995]. As mulheres em comunidades agrícolas em todo o mundo encarregam-se de maior parte do processamento de produtos de agricultura, sendo responsáveis em muitos lugares pelo armazenamento do alimento, pelo transporte e até mesmo pela venda do produto. Finalmente, em todos os cantos do mundo e com poucas exceções, são as mulheres que preparam e cozinham o alimento para suas famílias. Mulheres e a Bio-Diversidade A preservação da
bio-diversidade e dos recursos genéticos é agora
amplamente reconhecida como essencial para a segurança
alimentar. Desde que as mulheres carregam a grande
responsabilidade de proverem às suas famílias com
alimentos e cuidados, elas tem um conhecimento especial do
valor e dos diversos usos das plantas para nutrição, saúde
e renda. Isto tem importantes reflexos na conservação
dos recursos genéticos das plantas. São as mulheres
que, freqüentemente, conservam o conhecimento tradicional
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Da mesma forma, as mulheres, na condição de maiores supridoras de alimentos básicos, de água e de lenha têm um desafio importante na preservação do meio ambiente e no combate à degradação ambiental. As mulheres também reconhecem a importância das florestas como fonte de alimento, forragem, produtos medicinais e muitos outros produtos usados no lar. Desta maneira elas têm um interesse particular no desenvolvimento sustentável para preservar o ambiente. A Invisibilidade do Trabalho das Mulheres na Agricultura É muito provável que as contribuições das mulheres na agricultura, na silvicultura e na pesca ainda sejam subestimadas. Muitos dos números fornecidos anteriormente, por exemplo, referem-se à participação das mulheres na mão-de-obra paga da agricultura e não considera a enorme quantidade de trabalho gerada pelas mulheres na agricultura de subsistência, que é tão essencial para a segurança alimentar no lar e na comunidade. A razão pela qual muito do trabalho das mulheres tem ficado e permanece “invisível” é que censos, pesquisas, questionários, entrevistas e mesmo a avaliação rural participativa (ARP) ainda tendem a ser dirigidas para homens e consideram como trabalho apenas aquele que é remunerado. Isto deixa de fora grande parte do trabalho das mulheres na agricultura, que é trabalho familiar sem remuneração. As pesquisas freqüentemente consideram o principal trabalho de uma pessoa. Desta forma, mulheres que podem estar ocupadas em um mesmo dia, trabalhando no pedaço de terra da família, cuidando de pequenas criações, pescando, colhendo lenha, buscando água, transportando e vendendo produtos, processando alimentos e preparando refeições, pode não ter condições de responder qual é a sua principal atividade. Em adição a isto, as mulheres são condicionadas a pensar em si mesmas como donas-de-casa ao invés de produtoras agrícolas ou trabalhadoras na agricultura. Além disso, em muitos casos, a colheita de dados nem sequer é desagregada por sexo; e.g. censos podem contar o numero de pessoas engajadas no trabalho agrícola sem distinguir quantas pessoas são homens e quantas são mulheres. A solução é clara. Os dados devem ser desagregados por gênero; censos, pesquisas, questionário, entrevistas e ARPs precisam levar em consideração a produção de subsistência como o trabalho remunerado; a gama completa das tarefas das mulheres precisam ser consideradas; as mulheres devem ser entrevistadas diretamente por que não se pode confiar nos homens para conhecer ou para relatar todo o trabalho que as mulheres executam. Análise de Gênero O análise de gênero é o instrumento que tem sido utilizado para obter informações mais precisas sobre os papéis e tarefas das mulheres na agricultura em relação a aqueles dos homens. Muitos projetos de desenvolvimento fracassam porque os papéis das mulheres na agricultura não foram levados em consideração ou até mesmo reconhecidos. Recursos têm sido dirigidos para homens, com o objetivo de melhorar o cultivo, quando na realidade as mulheres eram as responsáveis. A análise de gênero ou o estudo de quais papéis e tarefas homens e mulheres têm em uma determinada sociedade foi desenvolvida para ajudar a evitar tais erros. A análise de gênero mostra que os papéis desempenhados por homens e mulheres na produção de alimento variam de um lugar para o outro. Homens e mulheres freqüentemente têm papéis complementares na produção de alimento; compartilhando ou dividindo tarefas na produção de certas culturas. Em outros lugares, homens e mulheres têm responsabilidades distintas por diferentes culturas ou criações. Na África, de maneira geral, os homens executam 90% da limpeza da terra e 75% do preparo do solo. O plantio e o cuidado com as criações domésticas são divididos igualmente entre homens e mulheres. As mulheres são responsáveis por 60 a 80% da capina, da limpeza de ervas daninhas, da colheita, do transporte, da armazenagem e da venda. As mulheres também executam 90% do beneficiamento do alimento, da coleta de água e combustível e são virtualmente 100% responsáveis pela alimentação da família. Os papéis das mulheres podem ser esmiuçados com mais detalhes, de país para país. No Nepal por exemplo, além de responsáveis pela coleta de forragem para o búfalo, elas também são responsáveis por prepará-lo para o arado; cuidam do gado e de outras criações; transplantam mudas; colhem e debulham; trabalham na horticultura. Em Marrocos, as mulheres estão envolvidas principalmente com a capina, com a colheita e a armazenagem das culturas de alimentos e também participam no plantio, no transplante, na irrigação no controle das pragas e na semeadura. Em certa área da Tanzânia, as mulheres são responsáveis por 70 a 80% da capina, da colheita, do transporte, do debulho, do processamento de alimento e da armazenagem, executam 40% da semeadura e do plantio e de 32 a 46% da limpeza do local e da preparação do solo com enxada e bois. A análise de gênero é utilizada não somente para obter informações sobre os diferentes papéis dos homens e das mulheres, mas também sobre acessos diferenciados aos recursos e ao controle dos mesmos, os benefícios que colhem do seu trabalho e os constrangimentos específicos enfrentados por homens e por mulheres. Com estas informações, as agências de desenvolvimento estão melhor habilitadas para dirigir os recursos para aqueles que mais necessitam deles. No passado muitos projetos de desenvolvimento, programas e recursos, foram dirigidos para homens, que supostamente seriam os produtores agrícolas. No entanto, cabe aqui um aviso de precaução a respeito de análise de gênero e dos papéis. A análise de gênero poderia ser usada para bloquear as mulheres em trabalhos enfadonhos ou para supor que as mulheres têm tantas tarefas que não teriam tempo disponível para comprometer-se com programas de treinamento. Tem havido sempre uma tendência a manter-se um padrão duplo e discriminatório com relação à tradição e aos papéis tradicionais de homens e mulheres. Raramente aparecem objeções quando os papéis dos homens são mudados para melhor ou quando novas oportunidades abrem-se para eles, mas a “tradição” é freqüentemente usada como argumento para evitar que mulheres tenham acesso a novas oportunidades ou assumam novos papéis. A análise de gênero, isoladamente, é insuficiente. As perspectivas de gênero também devem ser levadas em consideração. As mulheres devem ter a oportunidade de expressar seus pontos de vista e trazer suas perspectivas para as políticas e programas de desenvolvimento e de segurança alimentar. E para isto, deve haver participação eqüitativa das mulheres na tomada de decisões e na definição de políticas. Constrangimentos das Mulheres na Produção Agrícola Pequenos produtores agrícolas, tanto homens como mulheres são sujeitos a constrangimentos na sua atividade de produção agrícola. As mulheres, no entanto, enfrentam constrangimento adicionais e/ou mais severos, que se constituem em sérias dificuldades para a obtenção de segurança alimentar. Entre eles estão os seguintes:
A segurança alimentar é afetada por muitos outros macro-fatores correlacionados e por tendências que devem ser considerados em mente quando examinando os papéis das mulheres na segurança alimentar. Estão incluídos entre eles:
As mulheres não somente são universalmente responsáveis pela preparação do alimento para suas famílias, como também são freqüentemente responsáveis por supri-lo, seja pela produção, seja pela compra com seus próprios rendimentos. Esta divisão de responsabilidades de gênero freqüentemente não é reconhecida pelos planejadores do desenvolvimento. Falsas suposições a respeito da família como uma unidade têm efeitos danosos na segurança alimentar. Os planejadores do desenvolvimento freqüentemente pressupõem que o aumento da renda familiar, resultante do trabalho dos homens em culturas comerciais, irá beneficiar a todos e possibilitar a compra de alimento pela família. No entanto, em muitos casos, o rendimento adicional não é colocado em um fundo comum, apesar das mulheres serem responsáveis pelo suprimento do alimento. Um exemplo clássico é a América Central, aonde a cana de açúcar foi introduzida como cultura comercial e empregou homens, do que resultou um aumento de rendimento para a comunidade e simultaneamente, um aumento de ocorrência de má nutrição. Como os homens não estavam mais disponíveis para a limpeza da terra, as mulheres tiveram de cultivar lotes menores. O dinheiro ganho pelos homens não foi utilizado na compra de alimento e a comunidade passou a sofrer uma insegurança alimentar mais acentuada. Além disso, a crescente porcentagem de famílias chefiadas por mulheres significa que não é mais possível considerar o homem como o “ganha pão” da família ainda que isto possa ter sido verdade em algumas sociedades no passado. Mundialmente, aproximadamente um terço de todas as famílias são chefiadas por mulheres. Em algum países esta porcentagem é ainda maior, como no Lesoto (72%) e em Serra Leoa (40%). A Dominação Masculina dos Papéis de Definição de Políticas e Tomada de Decisões Os homens também desempenham papéis importantes na segurança alimentar, não somente como produtores agrícolas mas também na definição de políticas e na tomada de decisões das mais importantes organizações e instituições financeiras e comerciais, agências de desenvolvimento e corporações multinacionais, que têm o poder de controlar e modificar a disponibilidade e acessibilidade de alimento para centenas de milhões de pessoas. Os homens também dominam de maneira esmagadora os postos mais elevados para a tomada de decisões no World Bank (Banco Mundial) e no International Monetary Fund (Fundo Monetário Internacional), das transnacionais do mercado de produtos agrícolas e daquelas que fornecem sementes, fertilizantes e agrotóxicos. Eles dominam as posições mais altas em todas as organizações da ONU e nas agencias de desenvolvimento, tanto governamentais como não-governamentais, nos serviços de extensão e na liderança dos sindicatos e das organizações de trabalhadores rurais. Como Vandana Shiva assegura, há um “preconceito patriarcal contra padrões processos, políticas e projetos das estruturas econômicas globais.” A exclusão das preocupações, propriedades e perspectivas das mulheres na definição da economia, é danosa não somente para as mulheres mas também para o bem estar e a segurança alimentar de todos. Mobilização e Organização das Mulheres Shiva diz ainda “A
análise de gênero precisa deixar de pensar em termos de
‘impacto’ e ‘vitimização’ e precisa adotar um método
“estrutural” e transformador que trabalhe com as forças
subjacentes que formam a sociedade de modo a produzir mudanças
[Shiva, 1995]. A Primeira Conferência
Internacional do Grupo de Comercio dos Trabalhadores na
Agricultura, realizada na Dinamarca em dezembro de 1994,
apontou que “as mulheres representam a maior parte da força
de trabalho na agricultura e nas plantações e que o seu
emprego é freqüentemente precário . . . que
as mulheres continuam a ser sub-representadas em todos os níveis
dos sindicatos, mas especialmente em nível da liderança,
que há muitas barreiras para a igualdade, incluindo-se
(entre outras) a falta de conscientização nos
sindicatos.” Esta declaração inclui várias estratégias
e medidas concretas a serem tomadas para corrigir esta situação,
através de ações a nível do sindicato e através de
pressões para obter-se medidas específicas na definição
de políticas. Uma destas estratégias é aquela da
“educação nos sindicatos [que pode ser utilizado] como
um instrumento para a igualdade das mulheres no local de
trabalho e nos sindicatos. Esta educação pode ser
apenas para as mulheres ou mista, dependendo das
necessidades do grupo, mas deveria haver também treinamento
para conscientização de gênero, de modo a assegurar que
os homens compreendam e apóiem o papel das mulheres nos
sindicatos”. Referencias
Bibliográficas Tradução: Ágora |
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Produção da Web: Luciana Peregrino (Coordenadora de Comunicação do Grupo Origem)