FÓRUM ESTADUAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRIÇÃO DE PERNAMBUCO

 

FÓRUM ESTADUAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRIÇÃO DE PERNAMBUCO

FESAN - PE



NOVOS DESAFIOS SOBRE A FOME

Tony Hall, embaixador designado para o Programa Mundial de Alimentação
e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola da Organização
de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas;
atualmente, membro da Câmara dos Deputados;
presidente da Força-Tarefa do Partido Democrático na Câmara sobre a Fome

A fome é causa da pobreza, não um sintoma, afirma o deputado Tony Hall, embaixador designado para as organizações de fome e alimentação das Nações Unidas. Hall afirma que o mundo necessita estabelecer compromisso mais firme com a eliminação da fome. Ele indica novos e promissores programas de combate à fome, como a Iniciativa Global de Alimentos para a Educação e criativas parcerias entre os setores público e privado.

Desde que carreguei pela primeira vez uma criança morrendo em meus braços durante a fome da Etiópia em 1984/85, a comunidade de combate à fome organizou uma série de notáveis esforços para assegurar que essa tragédia nunca mais visite o nosso mundo. A reação dos elaboradores políticos e do público foi geralmente de apoio mas, nos últimos anos, as reações dos especialistas ao desafio de alimentar crescente população mundial estão cada vez mais sendo examinadas.

Apesar da clara evidência de progresso, muitos dos engajados nesse trabalho estavam olhando para além dos problemas imediatos dos obstáculos estruturais para atingir o objetivo de eliminação da fome e buscavam os caminhos à sua volta. O conhecimento convencional estava sendo testado, o público estava se engajando e as abordagens moldadas pelos ativistas de campo em países desenvolvidos e em desenvolvimento vinham recebendo novas considerações. Esperava-se que a próxima Cúpula Mundial da Fome e a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável marcassem o ápice desse processo e o lançamento de uma era de ações mais eficazes e esclarecidas contra a fome e a pobreza.

Então, em 11 de setembro de 2001, esse processo disciplinador e de adaptação transformou-se de material para conferências em uma tarefa prioritária dos Estados Unidos. Desde aquele dia horrível, os norte-americanos ganharam nova convicção de que as necessidades das pessoas que sofrem não merecem negligência, pena ou gestos vazios, mas atenção efetiva. Não é mais suficiente reconhecer apenas as deficiências dos esforços para reduzir a fome e outros sofrimentos; o que interessa agora é superar os obstáculos enfrentados pelos programas de ajuda externa dos Estados Unidos para a obtenção dos seus resultados desejados.

A questão não é que os terroristas que atacaram os Estados Unidos não eram pobres; a maior parte dos norte-americanos concorda, profundamente, que a miséria cria um desprezo que se espalha e arrisca-se a tornar nossos os próprios problemas e injustiças dos outros. O governo Bush reagiu com preocupação a esse campo fértil de criação de terroristas. No início da guerra, foram lançados alimentos no Afeganistão que, embora fossem uma solução imperfeita, não tinham precedentes. Mais recentemente, o presidente Bush prometeu aumentar significativamente o auxílio aos países pobres. Embora o apoio financeiro seja fundamental, somente o dinheiro não pode fazer esse trabalho. Os problemas da pobreza são complexos e, mesmo que as lições que aprendemos não sejam toda a resposta, elas necessitam ser aplicadas. Ainda que tentadoras, este não é o momento para medidas rápidas e provisórias, particularmente porque existe amplo consenso sobre as reformas necessárias.

Atualmente é evidente a futilidade de sobrecarregar países pobres com pagamentos de juros que crescem até tornarem-se grande drenagem dos recursos de que necessitam para o progresso futuro. O impulso para conceder perdão de dívidas a algumas das nações mais pobres do mundo surgiu de uma iniciativa estabelecida por grupos religiosos, que deram vida ao assunto bruto, tanto para os elaboradores políticos como para os espectadores. Embora seu entusiasmo tenha colocado o sucesso ao alcance, o auxílio aos países para que evitem cair novamente nas mesmas armadilhas receberá atenção sustentada dos Estados Unidos e de outros governos, bem como de organismos internacionais. Esse é um trabalho doloroso, não um problema a ser varrido com uma permuta de dívida por natureza ou um grande cheque, nem mesmo por uma troca por atacado de empréstimos por doações.

Outra questão conduzida por ativistas de campo tem sido a necessidade de justiça na responsabilidade ambiental e comercial, particularmente da forma em que ambas são moldadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional. O foco que tem sido colocado sobre esses problemas expôs suposições errôneas, como a ligação entre investimento e crescimento (que nem sempre é imutável), a importância da disciplina fiscal (que pode ser contraproducente quando for excessiva ou mal acompanhada), ou a capacidade dos homens de ignorar a natureza (que muitas vezes é uma vitória de vida curta). Muitas vezes, estas e outras falhas de projeto das iniciativas de desenvolvimento obstruíram o progresso; algumas vezes, deixaram comunidades em posição ainda mais precária. As lições aprendidas sugerem que o envolvimento precoce e significativo dos participantes e outros residentes locais é essencial para o sucesso duradouro de qualquer projeto.

As estatísticas acrescentam urgência para a relevância dessas lições na luta contra a fome. O mais preocupante é o fato de que apenas 10% das pessoas famintas e desnutridas do mundo são atualmente atingidas pelos esforços internacionais. A boa notícia é que muitas das pessoas que são assistidas são parte dos seis milhões que deixam as fileiras da fome a cada ano; a má notícia é que, para atingir os objetivos que estabelecemos para nós mesmos na Cúpula Mundial da Fome em 1996 (redução da fome mundial pela metade até 2015), um número quatro vezes maior de pessoas deve escapar da fome a cada ano.

Como modificar os resultados

Para modificar os resultados, devemos aplicar essas lições e repensar nossa abordagem sobre a fome. No passado, ela era vista como manifestação da pobreza, meramente um sintoma visível de um problema subjacente. Em vez disso, considerar a fome como causa da pobreza não apenas refletiria as impressões dos pobres, que são os verdadeiros especialistas; isso também causaria reação mais produtiva.

Uma forma de começar a pôr fim à fome que incentiva a pobreza é através do reconhecimento de que as pessoas com fome não têm o luxo do "longo prazo". Para sobreviverem, elas precisam de alimentos hoje e da segurança de saberem que serão capazes de alimentar suas famílias amanhã. Se elas precisarem concentrar-se em arrancar juntas sua próxima refeição, as pessoas com fome não podem agarrar as cordas de salvamento como a educação, novas técnicas agrícolas ou assistência ao microcrédito. Nem podem elas escapar das doenças que assolam suas famílias, mesmo quando alguns indivíduos se salvam. Como resultado, em vez de arriscar-se ao fracasso tentando algo de novo, muitos fazem o que sempre fizeram. E, como diz o ditado, o resultado é que eles conseguem o que sempre conseguiram: outra volta do ciclo vicioso de pobreza e ainda mais fome.

A Iniciativa Global Alimentos para a Educação, chefiada por George McGovern, ex-embaixador norte-americano para as organizações de fome e alimentação das Nações Unidas, e pelo ex-senador norte-americano Bob Dole, é um bom exemplo de programa que se dedica expressamente à insegurança alimentar. Ao fornecer a estudantes de países em desenvolvimento refeição sólida na escola (o que muitas vezes representa a maior parte dos nutrientes do dia), ele remove um obstáculo para o comparecimento às aulas. Não é a solução ideal, mas comprovou ser eficaz; começando em nosso próprio país, onde os programas de merenda escolar iniciados após a Segunda Guerra Mundial expuseram número surpreendente de norte-americanos que também eram impedidos pela fome de tornarem-se soldados capazes. Iniciado em 2000, com US$ 300 milhões em alimentos, trata-se de um programa de ajuda externa que pode receber apoio sustentado do público, atributo que merece maior respeito. Outro novo foco promissor é a abertura de mercados à participação mais ampla. Os países em desenvolvimento estão demonstrando maior disposição para auxiliar a resolver seus problemas, ao serem participantes ativos do comércio global. Milhões de outras pessoas na África, Ásia e América Latina poderiam erguer-se da fome e da pobreza se fossem eliminadas práticas desleais que confinam os trabalhadores pobres fora do sistema de comércio internacional. A comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, deverá continuar a auxiliar os países em desenvolvimento a obterem acesso a novos mercados, encontrando soluções comerciais de conquistas mútuas.

E também existem abordagens comprovadamente verdadeiras; do apoio às microempresas ao financiamento da educação básica e sobrevivência das crianças, até projetos que estão sendo adaptados para atenderem às necessidades dos que sofrem com o HIV/Aids e os órfãos pela Aids. Muitas vezes, tudo o que é necessário para tornar os programas tradicionais eficazes é simplesmente um compromisso mais forte com eles.

Prevenção

Outro fragmento de pensamento desatualizado é a noção de que a "fadiga da compaixão" prejudica o apoio para o trabalho de combate à pobreza. O problema não é que isso seja errado; o problema é que resultou em abordagem desesperada de combate à fome que tornou a "fadiga" uma profecia auto-realizável.

A assistência para emergências, por exemplo, antes representava 30% do trabalho do Programa Mundial de Alimentação, enquanto a prevenção da fome representava 70%. Nos últimos anos, isso se inverteu: os dólares de auxílio a projetos de irrigação ou renda, que poderiam auxiliar as pessoas a suportar tempos difíceis, estão seguindo para intervenções maciças e exuberantes após o início de uma crise. Secas, guerras e outros estopins para essas crises, naturalmente, não são falhas de ninguém. Mas o desvio de fundos da prevenção mesclou os problemas depois que se iniciaram. As imagens resultantes frustram até os doadores mais generosos e fazem com que outros se irritem com o que percebem ser falha de investimento mais consciente dos dólares de auxílio.

Os norte-americanos esclarecidos não esperam que o dinheiro solucione todos os problemas e realmente esperam ver problemas no noticiário; mas têm o direito de sentir que algum resultado dos esforços em andamento seja aparente. "O que funciona" pode nunca ser notícia importante, mas os projetos são a melhor esperança para o progresso que pode combater a fadiga dos doadores. Para ser mais eficaz, a prevenção deve começar nas áreas rurais, onde vivem 75% dos que experimentam pobreza extrema e onde os problemas imperam. As mulheres rurais, por exemplo, produzem 60 a 80% dos alimentos dos seus países, mas possuem apenas 2% das terras. É necessário fazer mais para fortalecer as estruturas legais que lhes permitem proteger sua propriedade e outros direitos. Outro exemplo: melhorar a produtividade agrícola significará encontrar formas que não prejudiquem ainda mais as frágeis terras ou esgotem adicionalmente o fornecimento de recursos de água doce, mas a dependência das famílias pobres na agricultura deixa pouco espaço para que experimentem novas técnicas.

Instituições públicas e privadas

Uma terceira forma de fazer as mudanças necessárias é penetrar no setor privado, que se tornou força criativa emergente na última década. O papel desempenhado pelo presidente da Microsoft, Bill Gates, e sua esposa, Melinda, que iniciaram um projeto de imunização com US$ 750 milhões, do magnata das comunicações Ted Turner, que contribuiu com US$ 1 bilhão para as Nações Unidas, e diversos outros doadores é notável e, esperamos, marca o início de uma geração mais ativa de filantropos.

Essa diligência não deverá, entretanto, parar na solicitação de fundos. Os indivíduos e as empresas parecem dispostos a aceitar novas responsabilidades sociais, mas devem ser engajados de forma mais construtiva para encontrarmos abordagens inovadoras. Diversas empresas provavelmente podem encontrar campos em comum com ativistas, por exemplo, em questões de Estado de Direito e outras questões importantes para a sociedade civil e empresarial. Mas certamente, elas podem ajudar a transmitir as mensagens dos ativistas sobre a necessidade de que os governos sejam responsáveis perante seus povos para audiências poderosas em ministérios às quais a sociedade civil raramente pode ter acesso.

Velhas abordagens não são a resposta

Por muito tempo, as necessidades alimentares de população crescente foram respondidas com uma série de soluções que tendiam a ignorar fatores culturais, políticos e religiosos. Espera-se que os países e seus povos adaptem-se a essas recomendações genéricas. Muitos o fizeram e os resultados de uma geração de trabalho foram, ao final, grandemente positivos. Mas há o risco inaceitável na aceitação de resultados com falhas sérias, ou por nos felicitarmos pelo progresso que atinge as vidas de apenas um em cada dez dos famintos do mundo.

Os ataques às Embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998 produziram nova geração de estruturas capazes de proteger os norte-americanos que trabalham no exterior e seus colegas. Os ataques em 2001 sobre a nossa sociedade e nossos valores, que as Embaixadas norte-americanas em todo o mundo simbolizam, devem promover reprojeto igualmente renovador dos programas e prioridades destinados aos dois bilhões de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia.

Iniciar este trabalho com determinação renovada de relegar a fome aos livros de história do mundo seria uma base promissora para a promoção do desenvolvimento sustentável e o fim da necessidade desesperada que empobrece a todos nós.

 
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